De testes de rotina às novas drogas: como a Polícia Científica identifica as substâncias apreendidas

Bia Borges
Foto: Paulo Henrique

A apreensão de uma droga é apenas o início do trabalho de uma investigação. Nos laboratórios da Polícia Científica do Paraná (PCIPR), as substâncias recolhidas passam por análises que identificam sua composição, revelam adulterações e permitem detectar o surgimento de novas drogas sintéticas. O resultado desse trabalho fornece a comprovação científica necessária para as investigações e processos criminais.

“O laudo pericial é a prova material do crime. No ordenamento jurídico brasileiro, a materialidade do crime de tráfico só é consolidada após a comprovação científica de que a substância apreendida é ilegal. Além disso, o laudo pode vincular diferentes apreensões, por meio do perfil químico, identificar a sofisticação do grupo criminoso e fornecer inteligência de segurança pública sobre a pureza e circulação de substâncias”, afirma a chefe do laboratório de química da PCIPR Gabriela de Moraes Pinto.

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Após chegar ao laboratório, a amostra passa por uma série de procedimentos padronizados. Inicialmente, são realizados exames preliminares que auxiliam na triagem do material. Na sequência, entram em ação equipamentos de alta precisão, capazes de identificar a composição química da substância por meio da comparação com padrões analíticos e bancos de dados especializados. 

Nos casos mais comuns, o trabalho consiste em confirmar a presença de substâncias já conhecidas pelas autoridades, como cocaína, maconha e anfetaminas. Para isso, os resultados obtidos nos exames são comparados com padrões analíticos e bibliotecas especializadas, permitindo a identificação precisa da composição química da amostra e a emissão do laudo pericial.

“A confirmação da composição de uma substância apreendida envolve diversas etapas, como o recebimento e registro do material, a descrição e documentação da amostra, o preparo analítico, a realização dos ensaios instrumentais, a interpretação dos resultados e a elaboração do laudo pericial”, afirma a chefe do laboratório de química da PCIPR.

Além da identificação da substância, os exames podem fornecer informações mais detalhadas sobre a composição do material apreendido. As análises qualitativas permitem determinar a natureza da droga, identificando, por exemplo, a presença de cocaína, THC, MDMA ou outras substâncias de interesse forense.

Já as análises quantitativas possibilitam medir a concentração da substância de interesse e identificar a presença de adulterantes ou diluentes adicionados à amostra. Essas informações ajudam a compreender características do material apreendido, como seu grau de pureza e possíveis alterações realizadas ao longo da cadeia de produção e distribuição.

Entre os compostos encontrados com frequência em amostras adulteradas estão cafeína, lidocaína e outros produtos utilizados para modificar as características da droga original. Os resultados contribuem para a produção de informações estratégicas que auxiliam investigações e permitem acompanhar tendências observadas no mercado ilegal de entorpecentes. 

Além das drogas tradicionais, os laboratórios têm enfrentado um desafio cada vez mais frequente: a identificação das chamadas Novas Substâncias Psicoativas (NSPs). Produzidas a partir de pequenas alterações químicas em compostos já conhecidos, essas drogas sintéticas são desenvolvidas constantemente e podem não estar presentes nas bases de dados utilizadas rotineiramente pelos peritos.

“Quando uma amostra apresenta um perfil químico incompatível com as substâncias já conhecidas ou não pode ser identificada pelos métodos rotineiramente empregados, ela é submetida a uma investigação mais aprofundada”, explica Gabriela. 

Quando uma amostra apresenta um perfil químico incompatível com substâncias já catalogadas, por exemplo, o trabalho pericial avança para uma etapa ainda mais detalhada. Técnicas complementares de cromatografia, espectroscopia e espectrometria de massas são utilizadas para determinar sua composição química e, quando possível, elucidar sua estrutura molecular.

O trabalho conta com o apoio de bancos de dados nacionais e internacionais e com a troca de informações entre laboratórios forenses e órgãos de segurança pública. Em situações mais complexas, a Polícia Científica pode estabelecer parcerias com instituições de pesquisa para acessar tecnologias complementares e auxiliar na identificação de compostos inéditos.

Dentro do universo das Novas Substâncias Psicoativas (NSPs), os canabinoides sintéticos, popularmente conhecidos como drogas “K”, estão entre os compostos que mais têm chamado a atenção dos peritos. Essas substâncias vêm sendo encontradas em diferentes formas de apresentação, como papéis impregnados, ervas e comprimidos, acompanhando a constante evolução do mercado ilegal de drogas. 

Outra tendência identificada pelos laboratórios é o aumento da circulação de drogas sintéticas comercializadas com forte apelo visual e mercadológico. Entre elas está a chamada “cocaína rosa” ou “tusi”, que, apesar do nome, geralmente não contém cocaína em sua composição e costuma ser formada por misturas de substâncias como cetamina e cafeína.

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