Prédio “desalinhado” de Caiobá vira ícone da arquitetura e intriga turistas há mais de 40 anos

Carlos Moraes
Edifício Torre Alta, em Caiobá — Foto: Uanderson Ferreira

Em meio à paisagem litorânea de Matinhos, um edifício chama a atenção de moradores e turistas por um detalhe incomum; sacadas que parecem completamente desalinhadas. O visual curioso do Edifício Torre Alta transformou o prédio em um dos símbolos arquitetônicos de Caiobá e em alvo frequente de comentários nas redes sociais.

Projetado pelo arquiteto Léo Grossman e inaugurado em 1982, o edifício foi pensado justamente para provocar impacto visual. Apesar da aparência assimétrica, o suposto desalinhamento das sacadas não passa de uma ilusão de ótica.

A fachada possui quatro modelos diferentes de sacadas que se repetem ao longo dos 21 andares. Todos os apartamentos têm varanda na sala, mas nem todas as unidades contam com sacadas nos quartos. Essa alternância cria a sensação de irregularidade na fachada.

O efeito visual foi estudado recentemente por Felipe Sanquetta, doutorando em Arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP), que pesquisa as obras de Grossman. Segundo ele, a distribuição das sombras ao longo do dia também reforça a impressão de desalinhamento.

“Vai ter situações em que você terá sol em cima do quarto; em outras, terá sol na sacada. Isso criava possibilidades comerciais diferentes para os apartamentos”, explica o pesquisador.

A estratégia também tinha objetivo mercadológico. Unidades com sacadas nos quartos eram comercializadas de maneira diferente das demais, criando variações de valor e de experiência entre os moradores.

Quando foi inaugurado, o Torre Alta era um dos poucos prédios da orla de Caiobá, o que ajudou a consolidar sua fama de construção ousada. Com o passar dos anos, porém, o visual passou a dividir opiniões. Em vídeos publicados nas redes sociais, internautas chegaram a definir o prédio como “aberração arquitetônica” e “medonho”.

Mesmo assim, o edifício segue valorizado. Atualmente, apartamentos no Torre Alta são avaliados em cerca de R$ 1,7 milhão, enquanto diárias podem ultrapassar R$ 800 na temporada de verão.

Além das famosas sacadas, o prédio também inovou ao apresentar uma piscina transparente visível da rua e uma garagem em formato de tronco de pirâmide — características incomuns para a época.

O síndico do edifício, Júlio Lopes, proprietário de uma unidade há mais de dez anos, acredita que justamente a ousadia tornou o prédio especial. “Muitas pessoas não gostam da distribuição das sacadas, mas eu acho um diferencial. Não é a mesmice de sempre”, afirma.

A irreverência de Léo Grossman também aparece em outras construções do litoral e de Curitiba. O arquiteto foi um dos fundadores do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná e deixou obras marcantes no estado antes de falecer, em 1989.

Mais de quatro décadas após sua inauguração, o Torre Alta continua despertando curiosidade, dividindo opiniões e reforçando o título de um dos prédios mais icônicos do litoral paranaense.

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