Até sexta-feira, 10 de abril, a Câmara de Vereadores de Guaratuba nunca havia reprovado contas de prefeitos cujo parecer do Tribunal de Contas do Paraná era pela sua aprovação.
Em verdade, o comum sempre foi aprovar as contas do prefeito, mesmo com parecer do TCE opinando pela rejeição. Foi o que aconteceu com Evani Justus, Ananias e Miguel Jamur.
Mas, então, por que as contas de 2023 do ex-prefeito Roberto Justus foram rejeitadas por nove votos contra quatro?
Na prática, isso vai além de um posicionamento técnico. O episódio escancara um jogo de conveniências políticas, onde ex-aliados abandonam a coerência e transformam o Legislativo em um verdadeiro balcão de negócios.
Votaram pela aprovação Adriana Fontes, Ricardinho da Garagem, Felipe Puff e Maria do Neno, mantendo alinhamento com a ausência de qualquer fato novo que justificasse a mudança do entendimento técnico. Já pela reprovação votaram Marcio Tarran, Diego Elickar, Cátia do Doro, Rato Ratatui, Edna Castro, Juliano Petruquio, Wallace, Sandra Bertipaglia e Ricardo Borba.
O ponto mais contundente está no comportamento de ex-integrantes da própria gestão. Marcio Tarran e Diego Elickar ocuparam cargos estratégicos e participaram diretamente das decisões administrativas. Ainda assim, optaram por votar contra contas que ajudaram a construir, em uma mudança de posição que carece de sustentação técnica e levanta questionamentos inevitáveis.
A contradição se agrava com Cátia do Doro e Rato Ratatui, ambos eleitos como fortes apoiadores do grupo político do ex-prefeito e, agora, posicionados de forma oposta. A ruptura não veio acompanhada de justificativas consistentes, apenas de discursos frágeis e interpretações forçadas.
No caso de Tarran, o tom incisivo não foi suficiente para esconder a fragilidade jurídica do argumento. Faltaram elementos concretos e sobrou confusão, com tentativas de transformar trechos isolados em justificativa para um voto já definido politicamente.
Não houve qualquer fato novo capaz de modificar a orientação do Tribunal de Contas. O que se viu foi a construção de uma narrativa conveniente para sustentar um resultado previamente alinhado. A decisão deixou de ser técnica e passou a refletir interesses circunstanciais.
O episódio enfraquece a credibilidade da Câmara e reforça a percepção de que o interesse público tem sido deixado em segundo plano. Mais do que um julgamento de contas, o que se assistiu foi a consolidação de um movimento político, onde ex-aliados reescrevem suas posições conforme a conveniência do momento.
