O litoral do Paraná tornou-se ponto de partida de uma jornada internacional de conservação. Um filhote de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina), encontrado na praia de Matinhos, foi resgatado e reabilitado pela equipe do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), responsável pelo Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) no Estado.
Após 25 dias de cuidados no Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD-UFPR), o animal foi devolvido ao oceano em 21 de janeiro, em área próxima ao Parque Nacional Marinho da Ilha dos Currais. Desde então, segue sendo acompanhado por transmissor satelital.
O monitoramento indica que o filhote já está na Argentina, a menos de 800 quilômetros da Península Valdés, uma das principais áreas de ocorrência e reprodução da espécie. Cerca de duas semanas após a soltura, o elefante-marinho foi avistado também em La Coronilla, no Uruguai, evidenciando o percurso internacional da sua rota migratória.
Antes da soltura, o animal passou por avaliação clínica, coleta de amostras, microchipagem e, de forma inédita no Paraná, recebeu um transmissor satelital instalado com apoio da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). O equipamento permite acompanhar deslocamentos, padrões de mergulho e uso do habitat ao longo do trajeto.
O caso reforça a importância da cooperação entre instituições do Brasil, Uruguai e Argentina na proteção de espécies migratórias, que percorrem milhares de quilômetros pelo Atlântico Sul até alcançar áreas naturais de alimentação e reprodução.
A jornada desse elefante-marinho reforça um aspecto central da conservação: espécies migratórias dependem de ecossistemas saudáveis, políticas integradas ao longo de milhares de quilômetros e coordenação entre países.
Esse tema estará em destaque na próxima Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), que terá o Brasil como sede da COP em 2026, em Campo Grande (MS). A CMS é um tratado internacional que promove a cooperação entre países para proteger espécies migratórias terrestres, marinhas e aéreas.
O caso do elefante-marinho ilustra, na prática, a importância desse debate. “Esse filhote saiu do Paraná, cruzou o sul do Brasil, passou pelo Uruguai e agora está na Argentina, aproximando-se de sua área natural de ocorrência.
A CMS fortalece exatamente esse tipo de articulação internacional, essencial para garantir que as espécies migratórias encontrem ambientes protegidos e saudáveis em toda a sua jornada. Casos como esse mostram que conservação precisa de ação local, mas ser pensada em escala global”, afirma Camila.
A trajetória do filhote, de Matinhos à costa argentina, representa um caso bem-sucedido de reabilitação, mas também um exemplo concreto de como o desenvolvimento da ciência, estratégias de monitoramento ambiental sistemáticas e cooperação são fundamentais para a conservação de espécies migratórias em um cenário de mudanças ambientais globais.
“Cada etapa dessa história reforça a importância do monitoramento contínuo e das ações colaborativas. Agora, seguimos acompanhando os próximos capítulos dessa jornada, que começou no Paraná e segue rumo às áreas ao sul e de uso frequente pela espécie no Atlântico Sul”, conclui Camila.
Sobre o PMP-BS
A realização do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama, para as atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos. No estado do Paraná, Trecho 6, a execução é realizada pela equipe do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC/UFPR) (@lecufpr e www.lecufpr.net).
