A cientista brasileira Tatiana Sampaio vem desafiando os limites da medicina ao liderar uma das pesquisas mais promissoras do país na área de regeneração neural. Professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela é responsável pela descoberta da polilaminina, uma molécula capaz de reconstruir conexões nervosas e devolver movimentos a pessoas com lesões na medula espinhal antes consideradas irreversíveis.
O projeto teve início em 1998, no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ. A pesquisa desenvolveu, em laboratório, uma versão modificada da laminina, proteína natural que auxilia na conexão entre neurônios.
Criada a partir da placenta humana, a polilaminina apresentou resultados considerados históricos em testes preliminares: de oito pacientes voluntários, entre paraplégicos e tetraplégicos, seis recuperaram movimentos. Em um dos casos mais emblemáticos, um paciente que estava paralisado do ombro para baixo voltou a caminhar de forma independente.

Em janeiro de 2026, a pesquisa avançou para uma nova etapa após autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início oficial do estudo clínico que avalia a segurança do medicamento em humanos. Nesta fase, cinco voluntários recebem a proteína diretamente na área lesionada, com o objetivo de estimular a formação de novos circuitos nervosos.
Além do impacto científico e humanitário, a descoberta também representou um marco institucional, gerou o maior valor em royalties da história da UFRJ, somando R$ 3 milhões divididos entre inventores e universidade em 2023. Apesar disso, o caminho não foi isento de dificuldades. Cortes de verbas comprometeram etapas do processo e o Brasil acabou perdendo a patente internacional da tecnologia.
Carioca e apaixonada por biologia desde a infância, Tatiana Sampaio, hoje com 59 anos, construiu toda a sua formação acadêmica na UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado, além de realizar experiências internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha. Tornou-se professora da universidade aos 27 anos e consolidou uma trajetória marcada por dedicação, persistência e inovação.

Sua atuação vai além da pesquisa acadêmica. Ela também conduz estudos com cães para tratar lesões crônicas e é sócia e consultora da Cellen, empresa voltada ao desenvolvimento de terapias com células-tronco veterinárias. O avanço da polilaminina conta ainda com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do laboratório farmacêutico Cristália.
A trajetória de Tatiana Sampaio simboliza a força da ciência brasileira e reforça o papel transformador da pesquisa pública. Sua descoberta não apenas desafia conceitos consolidados da medicina, mas devolve esperança e perspectiva de autonomia a pacientes que, até então, não tinham alternativas terapêuticas capazes de reverter o dano medular.
