O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes teria feito seis ligações telefônicas, no mesmo dia, ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar do andamento da operação de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A informação foi revelada pelo jornal Estado de S. Paulo. Além dos telefonemas, ao menos uma conversa teria ocorrido de forma presencial. Moraes nega ter feito ligações a Galípolo.
O contato ocorreu enquanto o Banco Central analisava o negócio que poderia salvar o Banco Master, instituição ligada ao empresário Daniel Vorcaro e liquidada pelo próprio BC em 18 de novembro, sob suspeita de fraudes estimadas em R$ 12,2 bilhões.
O episódio ganha contornos mais sensíveis porque a esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, firmou contrato de R$ 129 milhões para representar juridicamente o Banco Master em Brasília, inclusive junto ao Banco Central.
Diante da repercussão, Alexandre de Moraes divulgou três notas públicas negando que tenha tratado do Banco Master nas conversas com Galípolo. Inicialmente, mencionou apenas “reuniões”.
Após a publicação da reportagem sobre os telefonemas, afirmou que os encontros ocorreram nos dias 14 de agosto e 30 de setembro, em seu gabinete, e que o único tema abordado foi a Lei Magnitsky, aplicada contra ele e, posteriormente, contra sua esposa.
Segundo o ministro, as conversas trataram exclusivamente das consequências da sanção americana, como a manutenção de contas bancárias e meios de pagamento. Moraes também declarou que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação envolvendo BRB e Banco Master junto ao Banco Central. O BC confirmou essa versão em nota própria. Nenhuma das manifestações cita o Banco Master diretamente.
As explicações, no entanto, apresentam inconsistências. De acordo com o Estado de S. Paulo, a reunião entre Moraes e Galípolo não consta na agenda oficial do presidente do Banco Central nem da diretoria da autarquia, prática considerada incomum, mesmo para compromissos reservados. Além disso, a nota do ministro erra a data da aplicação da Lei Magnitsky, que ocorreu em 30 de julho, e não em 30 de agosto, como informado.
Há ainda contradição sobre a própria operação financeira. O texto menciona a “aquisição do BRB pelo Banco Master”, quando, na realidade, foi o BRB que tentou comprar o Master. Outro ponto sensível envolve o contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes; reportagem anterior do jornal O Globo revelou que o acordo previa atuação direta junto ao Banco Central, Receita Federal e Congresso Nacional em defesa dos interesses do banco e de Daniel Vorcaro, informação que não foi negada à época.
As lacunas e divergências nas versões oficiais ampliam o desgaste institucional e alimentam questionamentos sobre a relação entre autoridades do Judiciário, do sistema financeiro e interesses privados em um dos casos mais sensíveis do setor bancário recente.
